Não se sabe ao certo, a data e o local, onde cabras, ovelhas e vacas foram domesticadas. As evidências disponíveis sugerem que isso ocorreu de 8 a 10 mil anos atrás no Sudoeste da Ásia.

Desde então, a criação destes ruminantes difundiu-se entre os povos e tornou-se praticamente cosmopolita. Na América, vale lembrar, os povos que aqui viviam não conheciam o “gado”, esse fora trazido pelos colonizadores, cinco séculos atrás.

Nessa viagem na história, desde a domesticação dos animais até os sistemas de produção adotados hoje, um episódio cercado de importância merece menção. Um jovem americano chamado John Gates desenvolveu, em 1876, o arrame farpado. Embora superestimado, alguns consideraram essa invenção como a mais importante da década.

Entre as razões que permitiram tal designação estavam a praticidade e a eficiência de uso, além da acessibilidade econômica. Os aramados substituíram cercas de madeira, e permitiram delimitar grandes propriedades privadas no Oeste dos EUA, inicialmente. A expansão foi rápida e em algumas dezenas de anos os bovinos estavam condicionados a áreas restritas, não podiam mais vagar livremente pelos campos.

À medida que os campos passaram a ser cultivados, houve e ainda há uma tendência de substituição das pastagens naturais por monocultivos, ou, na melhor das hipóteses, misturas de duas espécies.

Exemplo

Um exemplo desse cenário é a continua transformação do Pampa, bioma formado por centenas de espécies vegetais que coexistem e que ainda recobre largas porções de terra no Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai.

Nesse cenário, é possível conjecturar que mesmo os animais mantidos sob regime de produção à base de pasto, estes estão condicionados à ambientes pobres em biodiversidade de plantas.

Entretanto, também é necessário mencionar os saltos em produtividade alcançados pelo emprego (exigido) de melhorias da fertilidade do solo e da consequente maior produção de matéria seca de pasto nestes arranjos, o que, invariavelmente, permite aumentar a carga animal por área.

Apesar dessas evidências, nos últimos anos, parte da pesquisa científica na área de forragicultura tem focado seus esforços em direção a compreender as interações existentes entre plantas em pastagens biodiversas (compostas por várias espécies).

Isso permite explorar sua complementariedade, ou seja, a inclusão de mais espécies de plantas em um monocultivo, como meio de construir ambientes pastoris mais resilientes, produtivos e com uso mais eficiente de recursos (água, luz, nutrientes), consequentemente, sustentáveis.

Diante disso, a inclusão de espécies, mesmo em pastos já formados por consórcios binário (duas espécies), como por exemplo, azevém perene e trevo branco, têm proporcionado benefícios ao sistema de produção como um todo.

Essas melhorias estão ligadas ao aumento da produção de forragem (1), aumento da produção animal (2) e menor impacto ambiental (3). Como um exemplo de planta que pode complementar-se ao consórcio mencionado acima, destaca-se a Chicória e também a Tanchagem, por seu sistema radicular agressivo, baixo teor de fibra e baixo teor de nitrogênio não proteico.

Isso possibilita, respectivamente, a manutenção parcial da produção de forragem em situações de déficit hídrico, maior ingestão de matéria seca de forragem pelos animais e menor excreção de nitrogênio na urina de vacas leiteiras. Esses são apenas alguns dos potenciais benefícios apontados pela pesquisa quando se constroem ambientes pastoris mistos.

Desafio

Contudo, essas inferências não podem gerar a falsa percepção de que qualquer incremento no número de espécies em uma pastagem gerará melhorias no sistema, algumas plantas são redundantes, ou seja, suas características são muito semelhantes umas às outras, o que não se traduz em benefícios claros.

Além disso, as plantas podem ser complementares, mas não coexistirem ao longo do tempo por diversos motivos (seletividade animal, clima, manejo, etc.) o que não permite o estabelecimento de um sistema estável.

Ao fim desse enredo, presume-se que os campos naturais evoluíram ao longo de milhares de anos até alcançar uma condição de equilíbrio entre espécies vegetais e para com os herbívoros que o habitavam.

No entanto, o homem modificou a paisagem ao longo das últimas décadas, acondicionando os ruminantes à ambientes pobres em diversidade de plantas. Atualmente, a pesquisa parece ter voltado seus olhos as origens e percebido os potenciais benefícios do emprego de pastagens biodiversas, o que conduz a identificação de espécies “adequadas” para serem incluídas em monocultivos, como uma alternativa para construir ambientes pastoris sustentáveis, por meio da exploração da complementariedade entre plantas.

Apesar destas vantagens, é conhecida a lacuna que ainda existe entre os resultados encontrados no meio científico e sua capilaridade no meio rural. Os pecuaristas são os agentes que, em última instância, definem quais espécies forrageiras serão utilizadas nas propriedades.

Desse modo, mesmo que as pastagens biodiversas possam significar um passo à diante nos sistemas produtivos, cabe aos pesquisadores tentar equalizar as diferenças das plantas a fim de definir diretrizes de manejo (no que tange escolha de espécies, estratégias de implantação e adubação, altura de manejo entre outras) que sejam práticas e aplicáveis aos sistemas de produção brasileiros, ao contrário, ciência e adoção prática caminharão invariavelmente em caminhos díspares.

Referências

(1) Pembleton, K.G et al. Simple versus diverse pastures: opportunities and challenges in dairy systems. Animal Production Science, v.55, 2015.

(2) Roca-Fernández, A.I. et al. Pasture intake and milk production of dairy cows rotationally grazing on multi-species swards. Animal, v.10, n.9, 2016.

(3) Minnée, E.M.K. et al. Substituting a pasture-based diet with plantain (Plantago lanceolata) reduces nitrogen excreted in urine from dairy cows in late lactation. Livestock Science, v.239, 2020.

FONTE: MILKPOINT