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Tecnologias em nutrição animal: aumento na produtividade de forma sustentável

por | 4 nov 2020 | Sustentabilidade, Tendência

Estima-se que em 2050 seremos aproximadamente 9,7 bilhões de pessoas no mundo. Para suprir a demanda por alimentos dessa população, será necessário aumentar em cerca de 70% a produção de produtos de origem animal e, isso tudo, dentro dos limites do nosso planeta. Nesse contexto, os animais ruminantes exercem papel chave, pois convertem pastagens e outros tipos de plantas forrageiras em alimentos de alto valor nutritivo, como o leite e a carne.

Esse balanceamento se coaduna com o conceito de sustentabilidade, o qual preconiza a busca pelo equilíbrio entre o suprimento das necessidades humanas e a preservação dos recursos naturais, não comprometendo as próximas gerações.

Contudo, no dia a dia, não é fácil pensar em sustentabilidade – um conceito que a princípio parece pouco tangível, principalmente na pecuária de leite. Podemos pensar que a sustentabilidade na pecuária leiteira está ligada ao uso eficiente dos recursos naturais, à alta produtividade da vaca durante toda sua vida, à redução dos gases de efeito estufa, à redução do uso de antibióticos e ao menor desperdício dos alimentos, neste caso, o leite. O ciclo de produção de uma vaca tem muitas particularidades e, para melhor entende-las, podemos dividi-lo em fases.

Fases

Tudo começa na fase de bezerra – fase crítica que exige muitos cuidados, fundamentais para seu crescimento adequado. Outro período de fundamental importância é o de transição, aproximadamente 3 semanas pré-parto até as 3 pós parto, no qual ocorrem diversas alterações fisiológicas e hormonais, que acabam causando aumento no estresse oxidativo e que fragiliza a saúde da vaca.

A seguir, se inicia a fase de lactação, onde se deseja que a vaca expresse seu máximo potencial produtivo por aproximadamente mais 284 dias. A nutrição pode e deve ser utilizada para enfrentar esses desafios dentro dos conceitos de sustentabilidade. O que se deseja é uma vaca com boa longevidade e que tenha máxima performance produtiva durante toda sua vida.

Para isso, cinco pontos chave podem ser trabalhados: 

1) Melhorar o balanço oxidativo das vacas, ou seja, diminuir a produção de peróxidos e radicais livres, quando em excesso;

2) Melhorar a utilização dos nutrientes da dieta;

3) Promover um melhor desenvolvimento do esqueleto;

4) Produzir leite livre de antibióticos;

5) Respeitar o meio ambiente.

Vitaminas

As vitaminas e os minerais são nutrientes que atuam de forma ativa no metabolismo oxidativo do animal, por fazerem parte de um sofisticado sistema antioxidante que impede a formação excessiva de radicais livres, prejudiciais a meia vida da célula imune. Com isso, a suplementação com minerais e vitaminas é importantíssima para a saúde da vaca.

Um exemplo clássico disso é a vitamina E, considerada o antioxidante mais potente da natureza, que está especialmente ligada com a redução da mastite. Estudos como o de Bill Weiss et al. (1997), comprovaram uma redução de 11,8% no número de casos de mastite clínica de vacas recebendo suplementação com vitamina E (1000 UI período seco, 4000 UI 14 dias antes do paro e 2000 UI no início da lactação). Além disso, neste mesmo estudo (Weiss et al., 1997), foi constatado que vacas com nível plasmático de vitamina E (α-tocoferol) abaixo de 3,0 mg/ml tinham 9,4 vezes mais chances de manifestar casos de mastite clínica no início da lactação.

A mastite é uma das doenças que causam grandes prejuízos na pecuária leiteira. Se considerarmos um número de vacas especializadas na pecuária brasileira ao redor de 3 milhões de vacas, com uma taxa de mastite clínica de 25% nesse rebanho e, consequentemente, uma perda de 150 kg na produção de leite por vaca (5 dias de descarte pelo uso de antibiótico), seriam 112,5 milhões de litros de leite perdidos.

Reduzir a incidência de mastite, apenas com suplementação vitamínica e mineral adequada, significa reduzir o desperdício de alimentos, reduzir o uso de antibióticos, promover o bem estar da vaca e melhorar a rentabilidade do produtor de leite.

Outro exemplo de vitamina que melhora o balanço oxidativo é o betacaroteno. Também chamado de vitamina da fertilidade, o betacaroteno é uma provitamina A que atua no nível dos ovários, diminuindo a formação de radicais livres, melhorando a produção de hormônios e, assim, melhorando as taxas reprodutivas – outro ponto crítico para uma produção de leite sustentável.

O estresse oxidativo afeta a qualidade do oócito e o desenvolvimento do embrião (De Bie et al., 2016). Estima-se que cerca de 40% dos embriões morrem antes de 14 dias depois da fertilização. Em seu estudo, Bian et al. (2007) comprovaram, com suplementação de betacaroteno dos 21 dias pré-parto até os 70 dias em lactação, uma redução no número de abortos de 10% para zero, bem como um aumento na taxa de concepção de 12 pontos percentuais.

O desempenho reprodutivo do rebanho leiteiro afeta muito a rentabilidade do produtor, pois isso interfere negativamente nas taxas de reposição e intervalos entre partos, os quais, quando muito longos, diminuem a produção de leite média do rebanho.

Nutrientes

Um outro tópico de extrema importância é a eficiência na utilização dos nutrientes da dieta para a produção de leite. Com esse objetivo, os aditivos zootécnicos, em especial as enzimas, merecem destaque. Atualmente, com o amido sendo uma das fontes energéticas mais importantes para vacas leiteiras, o uso da enzima amilase têm se intensificado.

Essa enzima atua melhorando utilização amido para a produção de leite de forma mais eficiente.  Estudos tem reportado aumento na digestibilidade da dieta (matéria seca  e FDN; Klingerman et al., 2009), aumento na produção de leite (de 700g a 3,6kg) e melhora na eficiência alimentar das vacas (Andreazzi et al.2018; Klingerman et al., 2009).

O melhor aproveitamento dos nutrientes permite produzir mais e de modo mais eficiente, o que está em conformidade com o conceito de sustentabilidade, além de proporcionar aumento na rentabilidade do produtor. 

É também crescente a preocupação com o uso de antibióticos em nutrição animal em âmbito mundial, por se acreditar no risco de desenvolvimento de resistência microbiana. Com isso, as cadeias de produtos de origem animal precisam estar preparadas para atender à demanda por carne e leite produzidos com menor uso ou livres de antibióticos.

Nesse contexto, surgiram algumas alternativas como os óleos essenciais e as leveduras. Os óleos essenciais são compostos extraídos de plantas e que, nas vacas, atuam modulando a fermentação ruminal, de modo a otimizar a ação e a saúde do rúmen.

O uso de óleos essenciais na dieta de ruminantes promove o desenvolvimento dos microrganismos mais eficientes no rúmen, de modo que há um melhor uso de proteína e energia da dieta e, consequentemente, há uma melhora na produção e composição do leite.

Os óleos essenciais não são classificados como antibióticos pela União Europeia e, por isso, é uma alternativa bem viável para a produção de leite e carne com a utilização mais eficiente de nutrientes e livres de antibióticos. Por meio de uma metanálise, Tassoul e Shaver (2008) comprovaram o aumento na produção de leite (+ 900g) e maior produção de gordura e proteína com o uso de óleos essenciais na dieta das vacas em lactação.

Quando utilizado no período de transição em associação com a biotina, os óleos essenciais promovem uma melhora no metabolismo energético, prevenindo a perda de peso pós parto, assim como uma melhora na produção de leite corrigida (Hausmann et.al, 2018).    

Na pecuária leiteira, principalmente em rebanhos com alta produção, deve-se haver um monitoramento constante das doenças que ocorrem, principalmente, no período de transição e que, muitas vezes, levam ao descarte precoce de animais. Parte desse problema pode estar relacionada com o metabolismo de cálcio da vaca, pois logo após o parto aumentam-se as necessidades de cálcio para a produção de colostro e de leite e, com isso, aumenta-se a demanda por cálcio que é mobilizado dos ossos.

Com a grande mobilização de cálcio dos ossos a cada parto, ocorre também uma queda gradativa deste mineral nas reservas corporais. Entre as principais ferramentas para reduzir este problema está o fornecimento da 25 hidroxivitamina D3 na dieta das vacas. Esta é uma forma mais ativa de vitamina D3 que aumenta a retenção de cálcio e fósforo nas vacas (McGrath et al., 2012). 

Quando utilizada no período de 21 a 30 dias antes do parto, a 25 hidroxivitamina D3 melhora o metabolismo do cálcio, permitindo que a vaca inicie o período de lactação com mais saúde e produzindo mais leite. Estudos têm demonstrado aumento na produção de leite de até 4 kg por dia e redução de doenças no início da lactação com o uso dessa tecnologia (Martinez et.al, 2018). Com isso, há uma melhora no desenvolvimento do esqueleto e bem estar animal.

FONTE: MILKPOINT

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